Não era um pesadelo. Percebi isso quando não acordei quando dei um beliscão no meu braço, agora ele está vermelho. Como se já não bastasse a dor de dentro de mim.
A minha vida não é um filme. E se fosse seria de terror. A pequena sereia virou punk, a cinderela grunge, a branca de neve puta. O Mickey tá mostrando o dedo do meio. “Foda-se o sistema” tá nas paredes. E talvez eu goste disso. Eu sou uma eterna fracassada.
Os contos de fada viraram livros de putaria e eu tenho que admitir que cresci. Ao abrir o olho pra vida você pode encontrar uma coisa linda ou uma bagunça. Sempre é a segunda opção.
Eu não sou mais inocente, não sou mais criança. Não posso me jogar no chão e chorar, dizendo que simplesmente não entendo como o mundo se tornou isso como uma criancinha imatura. E talvez eu goste do que o mundo se tornou, mas é errado. Não posso, não posso.
Não solta a minha mão, por favor eu te imploro! Eu não vou conseguir seguir o meu caminho sozinha, fica aqui do meu lado. Me dá um motivo pra continuar, por favor.
Eu não sou criança, eu não sou criança.
Eu aprendi a gostar de rock e não das músicas da xuxa, eu não posso voltar a ser criança.
Simplesmente não posso.
Era amor de botequim. Precisava beber um pouco de alcool pra esquecer. Precisava encher a cara. Deixar o copo cheio cair no chão. Deixar os bêbados me tararem pra me sentir feliz. Precisava jogar um pouco de sinuca ou gastar o meu dinheiro jogando canastra, só precisava esquecer. E acabar com uma grande ressaca no dia seguinte. Não era muito diferente de se apaixonar…
Eu te amo nos pequenos detalhes, será que não entendes moço? Amo quando o sol que entra pela fresta da janela ilumina seus olhos e o deixam cor de mel, fico hipnotizada com isso, amo quando tenta me convencer de algo, não percebeu? Não, você não percebeu, é. Como todos os outros… Muito obrigado pela consideração e volte sempre, viu? Já és de casa, tem a chave e não vou me iludir se voltar. Só acho infeliz o meu adeus para você ser o mesmo da padaria lá de perto de casa.
Todos a olhavam, achavam ela deprimida, melancólica e entediante. Triste talvez e tentavam animá-la, sem sucesso porque por dentro ela pulava de alegria. Era exatamente a vida que ela queria ter, será que ninguém percebia? Melancolia, rotina era tudo que ela sempre desejou. Já escrevera sobre como queria se aventurar na vida mas percebeu que tudo aquilo era impossível e sem sentido. O que ela sempre quis em segredo era o que tinha agora, essa vidinha entediante porém perfeita se vista em seu olhar.
Tinham acabado as férias e todo aquele ritual do primeiro dia de aula começara. As meninas se arrumavam crentes de que como aluno novo entraria um galã e os meninos, bom esses também esperavam que uma gata aparecesse na escola, sonhos nunca realizados… Mas eu não ligava para tudo isso, para mim era apenas mas um dia como todos.
Porém, ao contrário do que pensava esse não foi um dia comum. Eu havia conhecido ELA.
Ela havia passado por mim mas não me olhou, simplesmente não era necessário. Havia chegado um pouco atrasada mas não corria como a maioria das pessoas. Ela também estava com o cabelo preso num coque desarrumado e mantinha os lábios um pouco abertos de uma maneira que ficavam lindos. Os olhos castanhos eram misteriosos através dos óculos e as bochechas levemente rosadas se mexiam constantemente enquanto ela sorria. Ah, o seu sorriso!
Eu olhei para os lados esperando que todas as outras pessoas também parassem encantadas com tamanha beleza mas parecia que apenas eu conseguia aprecia-lá…
Dias se passaram e eu a acompanhava sempre enquanto ela passava da mesma maneira e então a perdia de vista quando ela entrava em sua sala. Esse momento era o mais mágico do meu dia entediante.
Bastou esses “alguns dias” para eu perceber que ela preferia conversar sobre política, natureza e a vida com os professores ao contrário das outras garotas que conversavam sobre maquiagem e garotos aos cochichos.
Ela era diferente, ela era perfeita.
O que aconteceu não foi exatamente romântico e entre beijos. Porém, se você for esperto o suficiente achara esse conto mais romântico do que os com “e foram felizes para sempre”.
Meses se passaram e nunca tive coragem para dizer um simples “oi”. Até que um dia ao invés de perdê-la de vista ao entrar na sala ia perdê-la de vista no final da rua pois era o último dia de aula e nunca mais a veria.
-Boas férias - eu falei a ela, pela primeira vez falei com ela! Era o último dia que ia vê-la isso merecia pelo menos alguma atitude minha.
Pensei que ela ia me olhar como se fosse um maluco mas não… ela se virou e sorriu. Ah, o seu sorriso!
Porque ela sabe que a felicidade está por aí, mas a preguiça à impede de procurar entre as vielas da vida.
